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Ferramentas de Composição Fotográfica – Parte 1

24 de Agosto de 2016

Introdução

Sempre digo que fotografia envolve duas amplas e distintas áreas. A arte e a técnica fotográfica. Bem distintas, verdade, mas que precisam caminhar lado a lado, todo o tempo. Pelo menos, na fotografia que eu me especializei. Um fotógrafo de paisagens não pode negligenciar a técnica, tampouco ser escravo dela. Ser meramente um fotógrafo técnico, irá lhe render fotos bem expostas (falo da medição da luz) e nítidas, porém sem graça, certinhas demais. Do outro lado, um fotógrafo talentoso, porém sem boa técnica, constantemente se esbarrará em obstáculos como controle da exposição, ruídos, estabilização da imagem etc. Em resumo, não conseguirá por em prática a foto que ele tem na cabeça. E isto é, no mínimo, frustrante. Sabe aquela foto noturna que não passou de um borrão, ou aquela foto de cachoeira que você tentou adicionar o sentido de movimento na água, mas que perdeu completamente as cores e textura do céu? Pois é bem por aí.

Quando falamos sobre técnicas de composição fotográfica, sobretudo estamos falando sobre a arte fotográfica. Mas como explicar arte é algo muito vago, subjetivo e impalpável, recorro à algumas técnicas (note que não são regras, de modo algum!) para tentar traduzir porque algumas fotografias nos saltam aos olhos, capturando nossa atenção e mesmo produzindo emoções e os mais variados sentimentos. Pensando melhor, a partir de agora chamarei de ferramentas, estas tais técnicas, ok?

Assim minimizamos o risco de alguém confundir arte fotográfica com técnica fotográfica.

Portanto, minha ideia nesta série de postagens é mostrar o que há de especial nestas imagens, o que faz com que possuam uma estética mais atraente, magnéticas, e no fim das contas, nos denotem maior interesse. Deste modo, não abordaremos aspectos técnicos. Nos enveredaremos apenas pela arte fotográfica.

As ferramentas que serão apresentadas, por se relacionarem de modo bastante íntimo com conceitos mais abstratos e estéticos, apresentam pouca rigidez e muitas vezes não possuem clara visualização, podendo, até mesmo, não contar com a concordância unânime entre os leitores. E sinceramente, nem é minha intenção doutrinar o olhar de ninguém. Afinal, estética é algo bem subjetivo e cada um tem sua interpretação sobre isto.

Mas, de maneira geral, há padrões bem aceitos acerca da composição na fotografia e mesmo estudos aprofundados sobre como o cérebro humano entende e reage a certos estímulos visuais.

Ao fim destas leituras, pretendo ajudá-los a criar fotografias visualmente mais poderosas, ora ressaltando elementos, ora criando profundidade e tridimensionalidade, ou mesmo denotando movimento, sentimento, além de outros resultados que contribuirão para atrair o máximo de atenção ao teu ponto de vista a cerca do mundo, afinal, isto é fotografia.

Composição Fotográfica – Conceituação – e ampliação deste conceito.

 “Arte não é o que você vê, mas o que você faz os outros verem.” Edgar Degas

Uma fotografia leva ao espectador a sua particular forma de observar o mundo.

Uma fotografia leva ao espectador a sua particular forma de observar o mundo.

Conceituar composição fotográfica em poucas palavras é tarefa árdua. Isto porque trata-se de um assunto bastante complexo, subjetivo e multifacetado. É susceptível de múltiplas interpretações, nas quais muitas vezes não há certo ou errado. Pra ser bem sincero, escrevendo este texto, eu mesmo me pergunto, vira e mexe, porque estou me atrevendo a dar meus pitacos sobre tema tão intrincado. Mas vamos lá, a esta altura, já não posso desistir. ?

Composição é a forma como se organiza uma fotografia. A escolha dos elementos visuais que farão parte dela e daqueles que não farão; determina suas localizações na imagem, seus espaçamentos, tamanhos, escalas, pontos de vista.

A composição comanda o olho do espectador. Ela cria uma sinergia que eleva a arte para mais que mera expressão; pode até mesmo transformar o trivial em sublime.

Acima disto, composição é mais que apenas estrutura visual. É como você conta a história de seus personagens a seus espectadores e como você relaciona sua expressão artística com os outros. Tem a ver com traduzir um local, um momento, uma emoção, em uma arte bidimensional, sem deixar que se perca o sentido de nada. Ela coloca o espectador num outro ponto de vista, convidando-o a ver e sentir da mesma forma com que o artista viu e sentiu. Para um artista, composição é a ferramenta onde ele mostra aos outros o mundo de uma forma como eles talvez não o vejam, por si só.

Dentre os diversos motivos que nos fazem reconhecer uma ótima fotografia, como a importância do assunto, a luz, o momento exato e a expressão, eu arriscaria dizer que a composição ainda se sobressai e representa um elo de ligação entre isto tudo, amarrando todas estas qualidades juntas. Digo isto porque de pouco se adianta que se tenha a luz perfeita, o momento crucial, o tema magnífico, sem a capacidade de se organizar e casar todos estes elementos numa imagem.

Viram quanta responsabilidade? Portanto, uma boa composição precisa ter equilíbrio, harmonia, força magnética e dinamismo. Tudo isto, para no fim das contas, dizermos: Uau, isto é arte!

Esqueça as regras, use apenas ferramentas!

“Você será lembrado pelas regras que você quebrar”. Douglas MacArthur

Para os defensores da Lei dos Terços, esta foto não estaria de acordo. Mas veja como um enquadramento 50/50 caiu perfeito para a paisagem.

Para os defensores da Lei dos Terços, esta foto não estaria de acordo. Mas veja como um enquadramento 50/50 caiu perfeito para a paisagem.

Se você está lendo este artigo, certamente é porque é um apaixonado pela fotografia. Ou, pelo menos, está neste processo! 😉 Então, arrisco dizer que você já ouviu – e muito – sobre a famosa regra dos terços. E talvez sobre super controversa, proporção de ouro. E quem sabe, sobre a regra dos ímpares, ou mesmo a lei da simplificação, dentre outras.

Bem, antes de mais, nada, quero dizer que você não deveria se prender a nenhuma regra. Por mais que haja certo sentido em cada uma delas, no fim das contas, elas irão, mais que ajudar, atrapalhar. Pois tendem a generalizar tudo, mostrando-se soluções mágicas, simples e reducionistas para suas fotografias. E todos nós sabemos, não há mágica alguma nisto aqui. Lembre-se: “Não há regras para bons fotógrafos, há apenas bons fotógrafos”. Assim já dizia o mestre Ansel Adams.

Então, mais do que pensar nas ferramentas a seguir como regras da composição, pense nelas como ferramentas numa caixa de ferramentas. Cada uma delas tem seus usos e suas limitações. Somente com a bastante prática, estudo dedicado e paciência você poderá se tornar um “expert” da composição. É vital observar com muita atenção o seu trabalho e o trabalho dos outros, tentando entender o que funciona e o que não funciona, para depois aplicar por trás das lentes.

Particularmente, escrever estes posts é uma de minhas formas de aprender sobre a arte fotográfica, pois me faz estudar, refletir muito e reconhecer os trabalhos dos verdadeiros mestres, mundo afora.

Elementos da Composição

A natureza está repleta de elementos dos quais iremos utilizar para compor as nossas fotografias. Podemos dividi-los nas categorias de elementos físicos e abstratos. Montanhas, rios, vida selvagem, rochas, árvores, flores, cachoeiras, tudo são físicos. Aos abstratos, podemos incluir texturas, sombras, contrastes de cores, formas abstratas, energia e movimentos de elementos físicos com o passar do tempo, entre outros. Ok, isso é óbvio, muitos podem dizer. Mas o ponto em que quero chegar é o seguinte: mesmo os elementos físicos podem ser enxergados como abstratos. E devem! Uma das chaves da boa fotografia é pensar abstrato, ver abstrato. Deixe-me ser mais claro: o que você vê na fotografia abaixo?

Que formas você consegue identificar nesta imagem?

Que formas você consegue identificar nesta imagem?

Se a sua resposta for algo como: uma estrada, uma montanha, árvores, nuvens, cercas e pastos, você está no local certo! Isto porque você ainda não aprendeu a enxergar abstrato, e aqui é onde você aprenderá, agora mesmo. =)

Vamos lá. Logicamente, também vejo tudo mencionado acima. Só que mais do que isto, eu primeiramente vejo formas. Pois vejo abstrato, quando penso em fotografia. Sabe aquela brincadeira onde dizem que fotógrafos vêem tudo enquadrado? Tudo como fotos? Pois é, é por aí mesmo. E adiciono: vemos tudo como abstrato. Na imagem acima, fotografada na região de Serra Caiada, Rio Grande do Norte, eu vi, pelo retrovisor de meu carro, uma série de formas interessantes, a começar pelas nuvens, bem curiosas, dotadas de uma sutileza singular. Parei, passei a mão na câmera, desci do carro e fotografei círculos, linhas, e triângulos. Pois é importante ver além do óbvio. Tentar entender, organizar e harmonizar as formas na natureza é papel crucial de um fotógrafo de paisagens. Perceba também como ignorei a tão falada regra dos terços. Simplesmente porque ali ela não fazia sentido.

Tente sempre ver suas paisagens em termos de perspectivas (profundidade e escala), espaço (localização e arranjo dos elementos) e formas (curvas, triângulos, linhas, círculos etc). Composição não é nada mais que encontrar um modo de relacionar todos estes componentes abstratos uns com os outros. Grave isto.

Veja novamente aquela foto, desta vez com o auxílio de uma edição.

De forma mais didática, para ressaltar os elementos abstratos da imagem.

De forma mais didática, para ressaltar os elementos abstratos da imagem.

Agora veja as fotos a seguir: a primeira, feita a partir da longa exposição das rápidas águas de uma corredeira no Rio Carabinani, no Parque Nacional do Jaú, Amazonas. As texturas da água bem negra, em contraste com a espuma branca, adicionadas ao sentimento de velocidade proporcionado pela fotometria da imagem, conferiram à fotografia uma grande abstração.

Abstrações da natureza. Fique sempre atento à elas.

Abstrações da natureza. Fique sempre atento à elas.

Nesta foto abaixo, as sombras de bandeirinhas de São João projetadas numa parece branca, na cidade baiana de Lençóis, fornecem um desenho e vida à fotografia. Perceba a utilização de linhas e outras formas geométricas.

Luz e sombras são ótimos elementos abstratos.

Abstrações da natureza. Fique sempre atento à elas.

Na imagem a seguir, registrada segundos antes de um temporal memorável numa ilha do Rio Negro, no Amazonas, veja o zigue-zague presente da base ao topo da foto. Além disso, perceba também as curvas que se repetem, formadas na areia. Tudo isto ajuda a aumentar a sensação de profundidade na imagem. Mais tarde falaremos mais detalhadamente sobre as consequências destes elementos na fotografia.

Perceba as linhas, que desenham um zigue-zague na imagem, responsável por conduzir o olhar do observador por toda a fotografia.

Perceba as linhas, que desenham um zigue-zague na imagem, responsável por conduzir o olhar do observador por toda a fotografia.

Por fim, um exemplo de como um elemento de destaque no primeiro plano pode ser utilizado para capturar o olhar do observador. A partir daí, note como as curvas formadas pela longa exposição de espuma sobre a água podem ser utilizadas para conduzir este olhar, previamente capturado, até o fundo da imagem, onde descansa majestosa, a Cachoeira da Fumacinha, no sul extremo sul do Parque Nacional da Chapada Diamantina.

A pequena ilha funciona como âncora, capturando inicialmente o olhar. A seguir, as curvas desenhadas na superfície da água conduzem o olhar, criando forte sensação de profundidade na imagem.

A pequena ilha funciona como âncora, capturando inicialmente o olhar. A seguir, as curvas desenhadas na superfície da água conduzem o olhar, criando forte sensação de profundidade na imagem.

Pensar abstrato irá definitivamente lhe render boas composições. Quando fotografando, preste sempre muita atenção nas formas, texturas e sombras. Folhas caídas, a textura de um tronco seco de árvore, um galho quebrado, rochas, o desenho das ondas no mar, os padrões repetitivos da areia numa duna, pegadas no chão, um tapete de flores no cerrado, o ziguezaguear de um rio, as curvas de uma estrada, tudo isto pode ser elemento para reforçar a beleza e atração de uma imagem. Para nossa sorte, as possibilidades são infinitas.

Bem, aqui termina a parte 1 da série sobre as ferramentas de composição fotográfica.

E lembrem-se, aprender enxergar abstratamente, ou seja, ver elementos visuais além do que eles realmente são, é imprescindível para que você possa criar composições sofisticadas. Sem esta habilidade, um fotógrafo se estagnará no nível básico.

Em breve, muito mais sobre este tema!

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